Dia desses estava no ônibus em direção a minha casa. Entrou nele um rapaz que de vez enquando utiliza a mesma linha que eu e passa a maior parte do tempo falando ao telefone com amigos, contando fatos pessoais de sua vida em voz alta. Já havia percebido que ele pertencia a alguma denominação neo-pentecostal por várias palavras-chave que ele usa durante as conversas, mas esse dia ele me impressionou.
Ele falava com sabe-se lá quem sobre a namorada. Por todas as conversas que já ouvi desse sujeito, já tinha notado que ele, que deve ter uns 25 anos para mais e se diz “obreiro”, deve namorar uma garota de 15, 16 anos no máximo. E ele dizia, convicto e cheio daquela certeza que só crentes têm, que a proibiu de uma série de coisas. Em um primeiro momento, achei que eram proibições “normais” que os crentes geralmente impõem às suas namoradas (namoradas, no feminino, que fique claro), como não usar roupas curtas ou sair à noite, mas quando ele disse que a havia proibido de fazer trilha com amigas da escola e também de conversar com uma amiga que segundo ele parecia lésbica, eu temi pela vida dessa menina.
E o rapaz foi o caminho todo destrinchando uma série de clichês bíblicos, como que o homem é o cabeça da família, logo a última palavra devia ser dele, ou que agora a menina frequentava a igreja com ele e devia se portar do jeito que ele quisesse. E por mais que no passado eu tivesse pertencido a uma denominação protestante, de cunho quase oposto à dele, fui reconhecendo toda aquela coisa, aquele ranço preconceituoso que faz parte do cerne de qualquer religião derivada do eixo judaico-cristão (e aí se incluem a maioria das religiões ocidentais e do meio-oriente) e me entristeci. Muito mesmo.
Virei para o lado e comecei a chorar baixinho. Aquilo, aquele universo onde aquele rapaz vive, cheio de machismo e preconceito de gênero e contra quem pensa diferente eu conhecia muito bem. Muito mais do que gostaria. Eu fui daquele jeito. E me desespera lembrar que contribuí de maneira direta para que várias mentes jovens e sadias, que deveriam estar descobrindo seu corpo e sua sexualidade, se castrassem simbolicamente e castrassem seus cérebros do pensamento crítico.
Eu provavelmente fui responsável pela miséria de vida de muita gente, e financiei com meu próprio dinheiro a destruição de vidas e de culturas do outro lado do país e do mundo. Eu, que sempre me julguei minimamente inteligente, fiz algo que hoje me envergonha mais do que qualquer outra coisa que tenha feito na vida, destruindo vidas em potencial. Nunca vou me perdoar por isso.
A maioria das pessoas pensa que o cristianismo é uma religião inofensiva que prega a paz e o amor entre irmãos, mas selecionando as partes boas e desprezando as ruins isso é bem fácil. Todo preconceito destilado pela bíblia é interpretado e subvertido pelos crentes esclarecidos, mas a mensagem de ódio continua lá.
Se luto hoje contra a religião dentro dos meus termos, tentando ajudar pessoas a exorcizar seus fantasmas, é por isso. Se o cristianismo te traz paz de alguma forma, nem perca seu tempo discutindo comigo. Ele pode te trazer paz, mas não se pode negar todo o teor odioso e preconceituoso contido nele. Você pode selecionar trechos bonitos de amor ao próximo, mas não pode esquecer que junto dele vem muito mais ódio, morte e desrespeito ao próximo do que amor. Amor é uma parte muito pequenininha dentro de tudo o que o cristianismo propõe, e geralmente se chama de “amor” algo bem diferente do que realmente o amor deveria ser: respeito pelo outro.
O cristianismo desrespeita e cospe na cara, e promete uma eternidade inteira de sofrimento e terror a quem ousa discordar discordar dele. O cristianismo é uma afronta à inteligência e ao potencial humano.